Elaborando...

...Elaborando:

Meus escritos são como imagens de um caleidoscópio: pequenos fragmentos repetidos, ampliados e combinados para formar uma imagem, fechar uma gestalt.
Todos viram personagens, posso usar qualquer vivência, minha ou de outras pessoas, tudo o que me toca e pede algum sentido. Onde havia canutilhos e miçangas podemos ver flores, mandalas, imagens de abstrações variáveis.
Você pode estar refletido em algum, ou vários, momentos. Mas não se ache tanto nem tão pouco: não há lugares fixos, e você pode ser apenas dois canutilhos e uma miçanga, não a figura completa.
E por quê? Porque fechar gestalts é uma função básica do cérebro, porque escrever é um meio de elaborar vivências e transformá-las em algo que se pode ver sob várias perspectivas. Porque é meu modo de crescer, porque preciso ver algum sentido na vida. Ou simplesmente porque é possível passar horas apenas rodando um velho caleidoscópio.

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terça-feira, 14 de agosto de 2012

Filme triste


Vejo você com olhos pueris
De quem vê brilho e bolhas de sabão
Vejo você com docura
E sonho com um beijo roubado


Vejo você com olhos adolescentes
Que descobrem o amor na figura do professor:
Inatingível
E sonho com um beijo sedutor

Vejo você na juventude
O coração já roto
Fingindo não temer novas feridas
E me aproximo, trêmula, de seus lábios

Vejo você, meia idade
O tempo passou
Beijo seus lábios sem pudor
E durmo apoiada no seu peito

Vejo você na velhice
Percorro as estradas do seu rosto
Beijo seus lábios, respeitosamente
E vejo o horizonte cada vez mais perto

Vejo você no caixão
Beijo seus lábios frios
Revejo nossos beijos como bolhas de sabão
Que fazem arder meus olhos


quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Cuidado


Essa noite será curta
Para tanto sentimento que vou guardar
Escondido, lá bem fundo
Porque você não merece ver
Nem ler nos meus olhos
Nem arder na minha pele
Nem invadir meus sonhos
Nem traduzir em gemidos
Ou respirar ofegante
... e eu me entrego
Num breve descuido

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Infértil

O peso da sua ausência sobre meu ventre
Sufoca,
Mais que o seu peso nas noites e manhãs de dúvidas


Meu ventre vazio acata seus medos
Se curva à sua partida
Expulsa os sonhos e o futuro

Meu ventre liso se acostuma
Ao frio e ausência
À busca por seu corpo
Em minhas memórias

Meu ventre exasperado desiste
Infértil de vida e de amor
Sedento de paz e ternura
Não porta semente
Não gera futuro
Apenas consome
O calor que você deixou


Meu ventre, frio, frágil
Esquece
Se aperta quando você passa
Se esconde quando você olha
Se mostra quando você ignora


Meu ventre não cresce
Atrai você
Suporta seu peso
Suporta sua perda
Finge não sentir-se vazio
Meu ventre, sem vida

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Cada vez menos

Cada vez sinto menos o coração aos pulos
Cada vez menos as pernas bambeiam
Cada vez menos o ar me falta
Cada vez menos penso em você

Cada vez menos sorrio de manhã
Cada vez menos canto no caminho para o trabalho
Cada vez me olho menos no espelho
Cada vez vejo mais olheiras


Cada vez menos tenho vontade de me levantar
Cada vez menos assisto a meus programas preferidos
Cada vez menos consigo ver seu rosto em minha mente


Cada vez menos vida
Cada vez menos cor
Cada vez menos ar

E cada vez que o vejo
Ainda me sinto sufocar
Cada vez mais longe
Cada vez mais devagar

E já não o vejo
Apenas quando o vejo sinto
o coração aos pulos
o ar a me faltar
e cada vez o vejo menos
e cada vez me vejo menos
até desaparecer completamente
 o mim em você
e o mim em mim